domingo, 24 de maio de 2009

A arte de secar roupa



A arte de secar roupa
Para Roney Maurício
Enquanto Elizabeth estendia roupa no varal, Lota, traçava rabiscos nas folhas brancas do seu inseparável bloco de desenhos. Ali, sentada em um confortável banco de madeira, bem perto do portãozinho, melhor lugar do quintal para observar, de cabo a rabo, absolutamente todo o varal, Lota esboçava a planta do ‘Copacabana Beach Park’. As duas moças desta história, Elizabeth e Lota, bebiam na fonte da misteriosa e inebriante arte de secar roupas no varal.
A arte de secar roupa não é nenhum mistério – exclamou Elizabeth. E, continuando, acrescentou; tantas coisas contêm em si o ato de lavar roupas, que secar não é nada sério, Lota. Primeiro lave, em seguida torça. Quando sentir que retirou do tecido quase todo o excesso de água, estenda no varal. Depois sente-se bem perto e observe os ventos indiscretos levantando as nossas saias, camisolas e peças íntimas. Levante-se e vá até os lençóis. Entre um arame e outro, STOP. É bem aí, na leira de um varal, que você vai brotar, Lota. Ande, caminhe, corra entre as leiras. Alcance as nossas toalhas em plena ventania, enxugue o suor da cara e viva intensamente o ritual de secagem. Seque um pouquinho a cada dia. Sinta o patchouli dos nossos lenços e fronhas. Corra mais um pouquinho, mude de leira. Beije meu vestido e passe as mãos nas nossas toalhas de prato. Volte para o banquinho, volte a observar as roupas lavadas esvoaçando loucamente no ar. Agitadas pelo vento, adejando sem parar. Puramente ansiosas para voar. Perceba, Lota querida, que algumas escapam daquilo que as prende no arame, caem ao solo e voltam a ficar sujas. É muito lindo! Pois é evidente que a arte de secar não chega a ser mistério por muito que as roupas pareçam (Pendure no varal!) muito molhadas. Seque um pouquinho a cada dia. Depois seque mais rápido, com mais critério. Aceite a hora gasta bestamente aqui comigo, estendendo roupas, Lota. A arte de secar não tem nenhum mistério. Já secamos lágrimas, sangue, garrafas e mais garrafas de álcool, a escala subseqüente. Da roupa que não foi lavada. Nada disso é sério. A arte de sujar, também, não é nenhum mistério. Sujei duas relações lindas. E um monastério. Tenho saudades delas. Mas não é nada sério. Não muda nada.
“– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério”.
Samambaia –Petrópolis

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A Arte de Perder – Elizabeth Bishop
A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita.
Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe.
Ah! E nem queroLembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas.
E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.
- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério".

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Roubei a foto lá no blog, 'Venenos, peçonhas e outras gentilezas';... de um texto que RM postou: DE POETAS E FANTASMAS (4) Ouro feminino (1ª parte).

Adoro quando Roney sai por aí narrando célebres fatos de Minas e seus fantasmas . Me senti provocada pelo varal de roupas na foto da casa de Elizabeth Bishop, poeta (poetisa, fazedora de poesias, como queira!), gringa, americana, bonita. Morou em Ouro Preto muuuuuitos anos. Lota de Macedo Soares foi um grande amor de Elizabeth Bishop.

A poeta - texto de RM
Elizabeth Bishop foi um dos nomes mais destacados da literatura em língua inglesa do século passado, sendo premiada, entre outros, com o Pulitzer Prize e o National Book Award. Viveu no Brasil cerca de 16 anos (décadas de 1950 e 1960), muitos dos quais em Ouro Preto, onde chegou a comprar uma casa (cliquem aqui para uma rápida biografia e aqui para um site completo dedicado à autora). Sua ligação com o Brasil, a princípio fortuita, acabou influenciando sua obra, segundo seus biógrafos e críticos. Foi também tradutora para o inglês de alguns dos mais importantes poetas e escritores brasileiros, como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Clarice Linspector, entre outros (cliquem aqui para uma lista completa de sua obra).

O trecho abaixo foi copiado daqui
"Leaving Santos, Bishop stopped in Rio de Janeiro to visit acquaintances she had met some years before, including the lively, cosmopolitan, well-connected Lota de Macedo Soares, who was at the time overseeing construction of a high-modernist home in the mountains near Petrópolis, north of Rio. By fortuitous misfortune, Bishop was stricken with a severe allergic reaction to the fruit of the cashew nut that delayed her departure — a delay that stretched into some seventeen years' residence in Brazil. In Lota, she had found the most profound love of her life. From early childhood, homelessness had been her condition, and it became a subject of her poems. When Lota invited Elizabeth to live with her in Samambaia, and offered to construct a studio for her behind the new house, she said, “It just meant everything to me."

2 comentários:

rm disse...

Ei Beth,
isso sim é gentileza, suave gentileza... (e não é a primeira vez)

Gostei muito do seu texto e vou querer exclusividade da próxima vez.

Thanks, nega baiana!

Maria Elisabeth disse...

Monsieur, RM.

Salut!

Merci beaucoup!

Vous êtes très gentil aussi!

Au revoir.